sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Missão ou profissão...


Uma sala de aula...cheia de vidas. Cada vida, uma história. Cada vida, mil pensamentos. Quando me defronto com meu primeiro dia numa nova sala, repleta de vida, eu me sinto desafiada.
Fico olhando para cada um e tirando minhas primeiras e superficiais impressões.
Uns mais calados, de olhos assustados.
Outros me desafiam com um sorriso irônico.
Rostos que tentam esconder detalhes da sua vida e
alguns que se deixam conhecer no primeiro contato.
Um universo de almas.
Quando estou ali, me sinto no lugar certo.
Aos poucos vamos nos conhecendo. Uma troca de conhecimentos.
Enquanto ensino, aprendo a conhecer o ser humano.
Se estou com crianças analfabetas me vejo num momento sublime...
sei que terei a experiência mais profunda que um professor pode ter...ver um pequeno ser humano aprender a ler....escrever...criar...descobrir...
Que divino!!!! Será a partir de meu trabalho, que ele terá a ferramenta para conquistar seu espaço dentro da humanidade.
Quando entro numa sala com adolescentes tenho plena consciência da importância de meu exemplo. Neste universo minha atitude vai ser mais significativa que minhas palavras. Conquistar a confiança e deixar que eles me vejam como ser humano passível de erros, se torna meu objetivo primeiro. Quando tenho êxito, sei que metade do meu trabalho está feito.
Ao lidar com jovens e adultos, na universidade, ser mestre toma outra dimensão.
Diante desses seres humanos já formados, leitores, sabedores de quem são, meu desafio é comigo mesma.
Além de passar o conhecimento que tenho, me vejo na responsabilidade de conhecer um pouco da vida deles. Investir um pouco de tempo ouvindo as entrelinhas do que dizem.
Meus alunos me encantam.
Eles trazem vida a sala de aula.
Uma interação entre mim e eles... é o que busco.
Algumas turmas são mais difícies.
Há tempos que esses laços demoram a acontecer....processo mais lento...
Turmas que me tiram do ponto de equilibrio, mas sempre procuro me lembrar dessa diversidade de seres que compõe uma sala.
Busco descobrir que caminho posso tomar para chegar até eles.
Alunos passam pela minha vida e muitos trazem profundo significado a ela.
Outros passam e sequer me lembro de seus nomes. No geral, são aqueles que fogem um pouco do aprendizado.
Aqueles que querem saber mais, sempre caminham ao meu lado por um tempo.
Nesse caminhar ensino além do conteúdo programático.
Ensino um pouco da vida.
Eles me ensinam mais, sem sequer saberem disso.
Eu aproveito cada momento.
Ensinar a saber e conhecer...ensinar a buscar o conhecimento e fazer uso dele...
Ensinar a respeitar e correr átras de seu destino...
Ensinar a construir e não entregar as coisas prontas...
As vezes me pergunto se sou professora por profissão ou por missão...
Não consigo me ver desconectada da professora que sou.
Não "estou" professora....eu sou isso....
Infelizmente não ganho em dinheiro por tudo que faço.
Talvez se ganhasse, não teria a virtude que tem....
Guardo em minha memória cada aluno que marca minha vida...
cada história triste ou feliz...
e agrego conhecimento da alma humana junto ao conhecimento acadêmico.
Uma parte de mim exerce uma missão
e quando posso comprar minha comida e meus livros...
vejo que faço dessa missão
a minha profissão.
Sou uma professora e amo fazer o que faço.
Minha expectativa é poder ter na minha frente uma nova sala...
cheia de novas vidas...novas histórias...novos desafios....
Vamos começar a aula! Vamos começar uma caminhada!








sábado, 3 de outubro de 2009

A Ana da Pipoca


Minha primeira experiência verdadeira com cães foi quando a Ana, minha filha, já tinha 4 anos de idade.
Desde pequena ela pedia um cão. Não havia espaço para cães em nossa casa, mas Ana era uma garota amorosa com animais e certamente ela teria uma grande experiência em termos de afetividade.
Um amigo, veterinário, me avisou que tinha feito o parto de uma ninhada de Cocker Spaniel de sangue puro. Me deu o endereço para que fossemos ver a ninhada e escolher um cão.
Quando chegamos lá, fiquei abobada...queria todos...todos eles...lindos...doces...com aquelas carinhas de coitadinhos...com aquelas orelhas enormes....Mas, uma fêmea nos chamou a atenção. Alegre...linda..cor de mel..PERFEITA... Ela seria a escolhida para dar de presente para a Ana.
Naquela tarde, fomos buscar a Ana na escola com a cachorrinha nos braços.
Nunca pensei que aquele encontro fosse ser tão profundo. Ana amou o filhote!
Quando escolheu o nome fiquei estarrecida... PIPOCA...Uma cachorra com pedigree, de raça nobre....com nome de cachorro de mendigo! Não houve outros nomes sugeridos que a demovessem de Pipoca. Nem os mais docilizados como Mel, Barbie, Bianca foram suficientes para Ana desistir do nome já antes escolhido.
Assim, nossa casa tinha uma Pipoca, arfando,correndo, tropeçando nas orelhas e "pipocando" por todos os lados.
A Pipoca era inteligente e certamente raciocinava... ela era capaz de coisas que nunca imaginei que um cão pudesse fazer.Aprendeu abrir a porta da sala para entrar e sair conforme fosse de seu agrado. Adorava pão francês e tinha pavor de água....Nenhum passarinho ou ser semelhante, podia sequer pensar em chegar perto de minha casa.
Tudo que Ana fazia com ela era de inteiro agrado de Pipoca. Sempre disposta a enfrentar o lado "Felícia" da Ana, não se opunha a qualquer brincadeira.
Roupas de bonecas enfiados pescoço abaixo...ela pousava para Ana. toucas...chapéus...unhas pintadas... Se dispunha a ficar presa por horas, dentro do quarto, servindo de boneca nas brincadeiras de casinha.
Mas, o mais impressionante, era a paciência que Pipoca tinha em aceitar ficar junto de Ana balançando na rede. Suas orellhas grandes iam e vinham... e lá permanecia ela, sempre fiel.
Fiel porque Ana era sua inteira propriedade. Se alguém chegasse perto da Ana ela se postava ao lado para avisar quem era a dona do pedaço.
Assim como Pipoca era fiel à Ana, o oposto era verdadeiro. Ana foi e ainda é fiel a essa cachorra.
Foi um amor lindo...algo que jamais vamos esquecer.
Pipoca nos deu momentos significativos.
Acabou com meu sofá e as pernas de minha mesa. Roeu pastas de couro e sapatos; matava Gambás intrusos e os colocava na porta da sala como troféu.
Acabou com um saco de carvão esparramando-o por toda varanda e para acabar seu serviço tirou as roupas do varal para esfregar no carvão...
Engoliu uma bolinha de silicone da Ana e teve que ser operada para tira-lá do estomago.
Cuidava da casa como um leão cuida de seu território. O coitado do "João", zelador do condomínio, era seu inimigo cruel. Ele sequer podia chegar a 40 mts da casa que ela virava um pit bull de orelhas caídas.
Ao pronunciarmos a frase:" vamos na casa do vô Bira" ela já sabia que era para entrar no carro que a viagem de 60 Km ia começar...só alegria....
Ficar brava com ela era impossível...quando ela nos olhava com aquele olhar fatal, que todo Cocker tem, nosso coração derretia.
Sua pelagem era linda e era encontrada em todos os cômodos, lugares, frestras, buracos e cantos de nossa casa.
Ana e ela eram uma só "pessoa"...não havia Ana sem Pipoca nem Pipoca sem Ana.
Uma combinação perfeita.
Mas, um homem cruel não gostou de seus latidos. Para esse homem uma noite que estavamos fora foi o suficiente para envenená-la. Sofreu muito para morrer.
Nossa Pipoca se foi em novembro de 2007.
Ela nos teve por 8 anos e perdê-la foi muito triste.
Pipoca será nossa eterna lembrança de fidelidade e amizade.
Ela foi generosa, e participou da fase mais linda de desenvolvimento da Ana. Ela ensinou a Ana o que era adoção, devoção, amizade...fidelidade.
Eram tão amigas que as vezes me assustava.
Hoje, mesmo com outra amiguinha em casa, Ana chora ao se lembrar de sua dona.
Há fotos e lembranças dela pela casa.
Seu último osso está bem guardado.
Suas fotos e histótias sempre serão contadas.
A Ana da Pipoca aprendeu muito com essa amizade... e eu, com essa linda e porfunda relação.
In memorian....

  RELATO DE MINHA FILHA :  Testemunho escrito por Ana:  "Tudo posso naquele que me fortalece!"  Dia 17 de Setembro:       Uma terç...