Sai governo, entra governo e sempre vem o impasse quanto a figura do funcionário público. Quando ainda menina eu aprendi com meu pai que o Brasil tinha um governo federalista e era gerido por três poderes: o Legislativo (que fazia as leis), o Judiciário (que julga perante as leis) e o Executivo (que faz com que as leis sejam cumpridas). Hoje o nosso país está tão confuso que as coisas não estão funcionando como devem. Mas, uma coisa sempre acontece: é o executivo, que com frequência, fica com a pior parte porque, além de trabalhar muito mais que os outros poderes, ele com certeza ganha bem menos.
Sou docente do ensino superior de uma Universidade Federal. Portanto, faço parte do funcionalismo público do poder executivo. Para chegar aqui eu fiz 5 anos de graduação, 2 de especialização, 2 de Mestrado e 4 de Doutorado (todos em Instituições Publicas). Depois desses 13 anos trabalhando e me capacitando ainda fiquei 4 anos estudando para concurso. Eu fiz o concurso que constava de prova de Título, prova escrita e prova didática diante de uma banca com 3 doutores da minha área (genética) que nunca vi na minha vida. Fui avaliada em todos os quesitos e passei em primeiro lugar. Assumi meu cargo em 2013 na Universidade Federal da Fronteira Sul- (RS) depois de uma porção de exames médicos para comprovar qualquer doença pré-existente inclusive de sanidade mental.
Fica aqui o endereço do meu Curriculum Lattes: http://lattes.cnpq.br/5691016775618198
Os três primeiros anos foram de estágio Probatório, onde fui avaliada em tudo que fiz para, só então, ganhar a estabilidade. Mas, mesmo com a garantia da estabilidade sou avaliada todos os anos. Sou obrigada a entregar um memorial (no meu caso todo mês de abril) relatando e comprovando todo meu serviço nos 12 meses anteriores. Além disso, todo início de ano somos obrigados a entregar um Plano Anual Docente prevendo todas nossas atividades. Esse plano tem parâmetros exigidos e deve ser aprovado pela chefia imediata bem como ser aprovado no Conselho do Campus. Ao final do ano entregamos um Relatório Anual Docente, comprovando que cumprimos o Plano que entregamos no início do ano e também ser aprovado pela chefia imediata e pelo Conselho de Campus.
Um docente federal tem o que chamamos de Tempo de Dedicação Exclusiva, ou seja, não podemos acumular nenhum outro cargo ou serviço seja ele qual for, nem mesmo vender Avon. Dedicamos TODO nosso tempo à Universidade. Não podemos sair do país sem autorização do Presidente da República salvo se estivermos de férias. Não recolhemos FGTS, o desconto do IR vem na folha (27%) e nos aposentamos sem a integralidade do salário vigente para a classe desde a presidente Dilma mudar a lei em 2013.
Como professores/doutores temos três áreas que devemos atuar: Ensino, Pesquisa e Extensão. O ensino abrange todas as aulas da graduação bem como as orientações de Trabalho de Conclusão de Curso. A pesquisa é um requisito obrigatório porque no Brasil não temos um órgão específico de pesquisa, então além das aulas temos de fazer pesquisa. No geral temos de três a quatro alunos para orientar na pesquisa em nível de Iniciação Científica. Atualmente tenho 2 alunos no IC. Outro quesito exigido é a Extensão, ou seja, temos que propor projetos que atendam a comunidade. No meu caso faço palestras sobre Saúde de Adolescentes, DST e Gravidez na adolescência. Todas essas atividades são devidamente institucionalizadas via Projetos que exigem prazos, etapas com entrega de relatórios anuais.
Além da graduação a Universidade deve oferecer cursos de Pós-Graduação. Eu sou professora permanente do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Sustentabilidade (PPGATS) convém pontuar que não ganhamos um centavo a mais para atuarmos em programa de pós-graduação, faço isso por ideal. Atualmente tenho cinco alunos sob minha orientação que me exigem um tempo razoável da semana em orientações, correções e trabalho no laboratório. Para ser professor de um programa de pós a CAPES (órgão do governo que cuida dos programas de pós) tem exigências quanto à qualidade do programa e os quesitos não são poucos. Temos que produzir ciência e PUBLICAR artigos científicos anualmente em boas revistas internacionais. Uma pressão relativa sobre o professor.
Além de tudo isso, somos obrigados a termos alguns cargos administrativos (também não ganhamos para isso, exceto alguns que têm FG que são poucos no âmbito das universidades) eu mesma exerço várias funções administrativas das quais não ganho nada. Essas funções são avaliadas e ganham peso quando temos a cada dois anos a chance de subirmos um degrau na carreira. A cada dois anos passamos de nível depois de avaliação e temos um aumento no salário de 200 reais. A cada 10 anos temos um progressão que eleva o salário um pouco mais. Mas, tudo isso vou perder quando me aposentar.
No geral os professores universitários só ganham aumento quando fazemos greve. Chega a ser hilário só sermos reconhecidos diante de gritos e greve. Que triste realidade de nossos governos.
Outra coisa importante é relatar como funciona o dinheiro que o governo manda para pesquisa. Vou relatar meu caso, fica mais fácil. O ano passado fiz um projeto para concorrer a um fomento para minha pesquisa para uma aluna da Pós. Fiz o projeto, ele foi avaliado por dois doutores da área além de pontuarem meu curriculum vitae. Fui contemplada com 3.300 reais (valor exorbitante). No projeto tive que especificar cada item onde seria gasto esse valor. Eu tive 12 meses para executar o projeto e gastar essa generosa quantia. Se no decorrer do projeto um dos itens não fosse encontrado e eu quisesse gastar com outro de igual valor era preciso enviar uma justificativa plausível e, se aceita, então ok.
Para cada item da planilha de gasto eu tive de apresentar três orçamentos de empresas e claro, comprar do mais barato. No meu caso eu consegui um Botijão de Nitrogênio Líquido por 2.300 reais, usado, porque um novo ia além da verba que eu ganhei. Para cada reagente que comprei com os outros 1000 reais foi a mesma coisa, três orçamentos para efetuar a compra. O dinheiro que ganhei do governo não pode vir na minha conta pessoal. Tive que abrir uma conta especial (sem cobrança de nenhuma taxa). No final do prazo preciso prestar conta, tenho que apresentar TODAS as notas bem como os orçamentos respectivos. Como sobrou 75,00 reais vou devolver ao governo sob uma GRU e fechar a conta sem um centavo sequer. Não há como roubar. Aqui! no baixo escalão do serviço público! porque nossos governantes no Legislativo roubam milhões bem na nossa cara. Beira o impossível de acreditar. Tanto zelo para não roubarmos 75 reais e eles roubam milhões, sem inclusive os três orçamentos.
ENTÃO....quando os governos falam de cortar gastos e fazerem reformas administrativas somos nós os servidores das "minas" do "trabalho de verdade" que levam a fama de onerarmos os cofres do governo.
Atualmente estou exercendo todas as minhas funções normalmente, com todas as atividades via remota: aulas, orientações, reuniões, demandas, pesquisa. Nada mudou, exceto que a pesquisa em Laboratório não pode parar e necessita de presença para cuidar dos experimentos. Temos prazo para cumprir. Então parte dos dias estou normalmente no ambiente de trabalho.
Fica aqui uma breve exposição do que um "Servidor Público" faz. Claro que não entrei no mérito da lei que rege nossa conduta e de como somos obrigados a agir com os alunos, porque hoje o professor deve cuidar com cada palavra, cada gesto para não ser processado por ferir ou aviltar o jovem que acredita ser o centro do universo. Nossa atitude no dia-a-dia é extremamente vigiada....mas, esse viés de nossa função é tema para outro texto, outra verdade para ser dita.
Caso queiram, podem abrir meu Curriculum lattes na plataforma da capes.
http://lattes.cnpq.br/5691016775618198
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